2012-11-19

Tempo, esse cruel mensageiro




T
anto tempo! Um corrupio de imagens enche-lhe o peito de um afeto quente e transbordante: o porte garboso, o olhar penetrante, a mão dele apertando a sua. Afinal, apesar dos maridos, dos filhos e dos amantes, ele nunca deixou de ser o preferido do seu coração. Lembra-se bem da última noite que passaram juntos. A segurança tranquila dos braços fortes na semiobscuridade húmida do quarto. Lá fora, as rajadas das kalashnikovs rasgavam os céus de Lourenço Marques. Ela tinha 18 anos, ele 24. Ela fugia da guerra, ele era obrigado a ficar.

E
 o gesto dele, a incrível nobreza do gesto dele, de recusar a virgindade que ela finalmente lhe oferecia naquela última noite! (“Não quero manchar assim o nosso amor...”) Suspira quando percebe que nunca outro homem a amara tanto. Agora sente o peito esvaziar-se, o frio regressar, a desilusão dos anos perdidos. Na sua mente paira a pergunta sem resposta que foi fazendo a si mesma ao longo de todos estes anos: “Como teria sido a minha vida se tivesse casado com ele?

M
ais uma vez, olha à sua volta no restaurante, para confirmar que ele ainda não chegou. Beberica mais um pouco da água tónica que pediu. Sente-se um pouco ansiosa e revê mais uma vez no seu pequeno espelho a mulher atraente e sensual que ainda é. Pelos vidros da montra do restaurante observa um desconhecido que se aproxima. Emaciado, olhar mortiço, alquebrado, vem vindo apoiado no braço de outro homem.

P
õe em causa, mais uma vez, a sensatez do encontro, no mesmo dia, à mesma hora, quarenta anos depois. Sente as pernas fraquejar e apoia-se mais no braço que o conduz. Mas não pode (não quer) morrer sem lhe pedir desculpa e sente que já não lhe resta muito mais tempo. Já próximo do restaurante, repara agora na mulher elegante que está sentada, sozinha, numa mesa perto da vidraça. Percebe instantaneamente que é ela, a sua rapariguinha inocente de Moçambique.

O
 coração acelera-se-lhe no peito, agitado, e estuga o passo, ansioso. Entra e os seus olhos procuram os dela. A emoção, reprimida por tantos anos, transborda. Tenta correr a abraçá-la, desajeitado, trémulo e chorando como um miúdo. Quer falar-lhe, explicar-lhe tudo, mas a voz afoga-se-lhe nas lágrimas e só é capaz de balbuciar: “Perdoa-me... perdoa-me... perdoa-me...” Quando finalmente acalma, deixa-se cair na cadeira e lembra-se do seu acompanhante. Acena-lhe que se aproxime e voltando-se para ela, orgulhoso, apresenta-o: “O Pedro, o meu marido!


Esperamos que tenham gostado da nossa história! Foi a nossa participação no desafio The Book of Distance, do irrequieto e criativo Sad Eyes e do seu blogue good-friends-are-hard-to-find.
O elo seguinte na cadeia do The Book of Distance é o Miguel, com o seu blogue um voo cego a nada.

16 comentários:

  1. Adorei. Uma belíssima história de distância marcada pelo Tempo.
    Gostei do "acróstico" :)
    E claro, uma bela escolha para continuar as histórias de distância.
    Espero que se tenham divertido.
    abc

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  2. Muito bom.
    Já previa um final diferente do teor geral da história, mas está muito bem introduzido.

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  3. Obrigado, Sad.
    De facto, foi divertido pegar em várias pontas (uma das quais foi o teu encontro no meio do Atlântico daqui por 10 anos), colar e adaptar.
    Obrigado pela tua iniciativa!
    Abraço
    João & Luís

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  4. Obrigado, João!
    É verdade... a nossa próxima história vai ter um final previsível, para que seja... "imprevisível" :D
    Abraço

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  5. Gostei imenso da forma como o tempo aqui significa distância e proximidade numa elipse perfeita entre passado e presente.

    Abraço x 2

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  6. Obrigado Arrakis
    Muito bem observado: o tempo, neste caso, também significa proximidade. Nós não tínhamos reparado nesse aspeto. Mas é como se diz, a interpretação dos textos, depois de publicados, deixam de ser exclusivo dos autores para passar a pertencer aos leitores!
    Abraço

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  7. repito o que escrevi no g+: adorei. tão bem escrito. distância, proximidade, distância pelo facto de ele ter deparado com aquela cruel realidade, no fim.
    bjs.

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  8. cá espero a encomenda. e espero também estar à altura dos antecessores, nomeadamente deste vosso conto, tão bem escrito e tão intenso do ponto de vista narrativo.

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  9. Obrigado, Margarida, Miguel e Cleber! Verdadeiramente, nada nos satisfaz mais que saberem que gostaram!

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  10. Olá João,

    É a primeira vez que passo no teu blogue.
    Deixa-me dizer-te que adorei este texto. Gosto particularmente da forma que utilizas para dispor as palavras. Não é fácil "romancear", pese embora se atribua especial dificuldade a outros géneros literários, o que não corresponde à verdade.


    abraço :3

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  11. Mark, muito obrigado pela simpatia! Também gostamos do que vais escrevendo no teu blogue, de que sou seguidor.

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